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Por que a camisa de time saiu do estádio e foi para o trabalho
A adidas vendeu quatro vezes mais camisas na Copa de 2026 do que em 2022. Mas o número que interessa é outro: a camisa virou peça de guarda-roupa, combinada com alfaiataria e saia. O blokecore passou de tendência a hábito.
Em 30 segundos
- A adidas vendeu quatro vezes mais camisas na Copa de 2026 do que em 2022 e estima cerca de 1,5 bilhão de euros em receita ligada ao torneio.
- Só a Alemanha vendeu mais de 3 milhões de camisas, três vezes mais que em 2022, na despedida da adidas antes da Nike.
- O blokecore, termo criado no TikTok em 2021, transformou a camisa em peça para usar com alfaiataria, jeans e saia.

Sai de casa numa segunda-feira qualquer e conta quantas camisas de time você vê. Não em dia de jogo. Numa segunda.
A camisa de futebol saiu do estádio. E os números de 2026 mostram que ela não vai voltar.
O tamanho da onda
A adidas vendeu quatro vezes mais camisas na Copa do Mundo de 2026 do que na de 2022. A empresa estima cerca de 1,5 bilhão de euros em receita ligada ao torneio, somando camisas, bolas e chuteiras, segundo o CEO Björn Gulden. As bolas, sozinhas, dobraram (Tradingsat e SGI Europe, a partir da Bloomberg).
A Alemanha é o caso mais curioso. Foram mais de 3 milhões de camisas vendidas, três vezes o número de 2022, e a azul reserva bateu o recorde da rosa da Euro 2024. O motivo é quase sentimental: foi a última Copa da seleção alemã com a adidas antes da troca pela Nike em 2027 (Footy Headlines, com dados da Manager Magazin).
Ninguém compra 3 milhões de camisas só para ir ao estádio.
Blokecore: o nome do hábito
O termo blokecore foi cunhado em 2021 pelo tiktoker americano Brandon Huntley. "Bloke" é o cara comum britânico; o "core" é o sufixo de estética da internet. A ideia: camisa de time, de preferência retrô, combinada com o que não combinaria. Calça de alfaiataria, jeans reto, minissaia, saia plissada (Canal 26).
Na lista de quem adotou estão Rosalía, Bella Hadid, Dua Lipa, Jennie, do Blackpink, e Georgina Rodríguez. E o mercado de usadas acompanhou: uma camisa do Real Madrid de 1989/90 aparece a 725 euros em lojas especializadas citadas pela mesma reportagem.
O TimesLIVE resumiu bem: a Copa de 2026 colocou a camisa no centro do verão, e as que mais circularam na rua não eram as titulares, eram as reservas. Cor diferente, menos cara de uniforme.
Opinião
Por que pegou no jovem
Camisa da Inter com calça de alfaiataria. Tá combinando tudo, e ninguém pensa em futebol primeiro.
Essa é a virada. A camisa deixou de comunicar só torcida e passou a comunicar estilo. Para o jovem, ela funciona como uma camiseta de banda nos anos 90: diz de que turma você é, sem precisar explicar.
E tem uma vantagem que nenhuma marca de moda consegue fabricar: história. Toda camisa vem com um jogo, um ídolo, um ano. A de 1994, a do Ronaldinho no Barcelona, a da Alemanha que se despede da adidas. É conteúdo costurado no tecido.
O contraponto: tem gente que acha isso esvaziar o símbolo. Usar camisa de time que você nem torce. Entendo, mas a moda sempre fez isso com farda militar, jaqueta de motoqueiro, camisa de rúgbi. O símbolo sobrevive. Ele só ganha mais leitores.
O que isso ensina para marca
Quando um produto sai do contexto original de uso, o mercado dele multiplica. A camisa era comprada uma vez por temporada, por quem torce. Agora é comprada por quem se veste.
A pergunta para qualquer marca é: o seu produto tem uma vida fora da ocasião para a qual foi feito? Se tiver, alguém vai descobrir. Melhor que seja você.
E aí, a sua camisa de time sai do armário só em dia de jogo, ou já virou peça de segunda-feira?



